o tempo da duração

“Obviamente, destruir a pedra não é possível. Apenas a mudamos de lugar. De qualquer forma,ela durará mais que os homens que se servem dela. Por enquanto, ela apoia a vontade de ação deles. Isso sem duvida é inútil. Mas mudar as coisas de lugar, é o trabalho dos homens: tem que escolher fazer isso ou nada. […] Daqui a cem anos, ou seja amanhã, tera que recomeçar.” Albert Camus, L’été, ‘Le Minotaure’, 1939

Ao contemplar o deserto de Oran e as suas precárias cidades de pedra, testemunhas da desesperada luta do homem para permanecer nesse horizonte primordial, Camus se depara com a semelhança da condição humana à do absurdo herói grego sentenciado a carregar sua pedra.

Companheiro milenar, a pedra impassivelmente assiste ao drama da humanidade. Nela encontra-se um adversário intratável que remete a impermanência da vida e a vacuidade de qualquer desejo de supremacia sobre a natureza, mas também um camarada de destino junto condenado a seguir sua trajetória kafkiana, lançada no vazio, até em seu torno virar terra, areia e poeira.

Através de obras que dialogam com a noção de mineralidade, ‘O Tempo da Duração’ propõe uma reflexão sobre questões da experiência humana e do seu lugar no mundo. Neste espelho brutal que é a pedra, encontra-se a intuição fundamental da duração de todo. A memória do instante eterno. Paradoxo cruel da necessidade absoluta de existir para continuar e continuar para existir. Da rocha precisa-se fazer uma irmã e uma amiga, pois “se a pedra não pode mais para nos que o coração humano, ela pode ao menos tanto ” Manoela Medeiros e Romain Dumesnil

 

Trabalhos
Sofia Borges
Rodrigo Braga
Romain Dumesnil
Maria Laet
Manoela Medeiros
Matheus Rocha Pitta
Igor Vidor

Textos
Ulisses Carrilho
Carlos Meijueiro
Alice Sant’anna
Michelle Sommer
Bernardo José de Souza

Performance Sonora
Cassius
Clinâmen (Yuri Firmeza, André Parente,
Lucas Parente, Pontogor e Luísa Nóbrega)
Guigo Freire
Juliano Serpa & Carolina Hollanda

dsc_4943_1dsc_4952_1dsc_4956_1dsc_4957_11otempodaduracao_matheus_rocha_pitta_2Rodrigo Bragadsc_5106_1dsc_5113_1dsc_4984_1dsc_5169_1dsc_5037_1dsc_5015_1dsc_5050_1_dsc5332_1dsc_5085_1dsc_5092_112011223_10206569867538709_7163209546137431668_n

alice sant’anna

às vésperas do aniversário

de cinquenta anos

ele perguntou o que ela queria

de presente

já tinha tanta coisa

tudo o que preciso, ela disse

e o que você não precisa

mas gostaria de ter?

ela respondeu um jardim

um jardim de pedra japonês

e foi assim

toneladas de pedra encomendadas

trazidas de avião, caminhão, qualquer jeito

um pedregulho no terreno da casa

o mais importante é que as pedras

sejam respeitadas

se nasceram viradas para o leste

devem continuar viradas para o leste

se nasceram apontadas para o alto

assim devem permanecer

é como transpor uma árvore

e no destino final

plantar a copa e deixar as raízes

viradas para o céu

no aniversário de cinquenta anos

lá estavam as pedras importadas

em suas posições originais

uma pedra pode ser levada de um lugar

ao outro mas feito um girassol

que morre rápido ou nem floresce

se estiver na sombra

não é à toa

que uma pedra

aponta para o leste

 

carlos meijueiro


Gosto de olhar a vida. As pessoas vivendo a vida, com suas manias e tiques, seus jeitos de andar, de olhar, de palitar os dentes, de mexer nos cabelos, de dormir, de cruzar as pernas, de falar as verdades e as mentiras, de cantar, de chorar, de sorrir, de amar, de gozar, de sentir medo, de comemorar. quando tô numa praça olhando a vida, e quero me tornar parte dela: se desejo movimento e finitude, ganho asas, olhos e patas vermelhas, e viro pombo, voador que prefere caminhar na cidade; se sonho ser parte inteira, pleno, viro pedra sobre o banco verde de madeira. Estátua com coração mole que chora ao ver criança jogando pião com velho, ou só de sentir o cheiro da pipoca doce. Uma estátua que envelhece, que sente, que lembra, e que está lá todos os dias, com os mesmos olhos, fixados na vida fluindo como rio que corre sobre o chão das pedras que sou feito.

 

michelle sommer

A ruína é a câmara escura da memória. Produz desorientação no espaço-tempo e contém uma história que fascina pela presença da ausência. Mas a história é histérica, só se constitui se a gente a olha, e para olhá-la é necessário estar fora dela, nos diz Roland Barthes. Se a história é uma memória fabricada, uma falsa memória, um puro discurso intelectual que anula o tempo mítico, como nos conectamos, então, com a ruína (e suas pedras) no tempo presente?

O estenopo é a abertura da câmara escura, de diâmetro muito pequeno, que permite que se forme em sua parede oposta uma imagem invertida.  Na ruína câmara escura, é no estenopo que se dá a tomada da consciência do tempo passado que se abre para o tempo da duração na experiência imediata da ação.

Em “O tempo presente no espaço”, Robert Morris em 1978, define presentness como a inseparabilidade intima da experiência do espaço físico daquela de um presente continuamente imediato. “O espaço real não é experimentado a não ser no tempo real. O corpo está em movimento, os olhos se movimentam interminavelmente a várias distancias focais, fixando inúmeras imagens estáticas ou móveis. A localização e o ponto de vista estão constantemente se alterando no vértice do fluxo do tempo”.

No tempo de duração, na efemeridade da nossa permanência no estenopo da câmara escura, novas camadas de memória móveis são aderidas às ruínas.

ulisses carrilho

A arquitetura egípcia alcançou sua plenitude quando a maior das pirâmides foi construída mirando a certeza da eternidade. Estima-se que em 2530 a.C. a edificação ergueu-se em homenagem ao faraó Khufu – as traduções divergem, também fora chamado nos alfarrábios de Queóps – e manteve-se até o início do século XX uma das mais altas e firmes obras construída pelo homem das quais se tinha notícia. À época, os servos africanos movimentaram cerca de 6,5 milhões de pedra, dentre as quais blocos inteiriços de 9 toneladas, com nada mais que cordas e madeira. Nos últimos 4500 anos foram tais montes de pedra erguidos numa engenharia rudimentar, arquiteturas que são sinônimo de forma básica, tema de interesse e admiração, capaz de curar, segundo a New-Age. Tal fascínio com a engenharia –e certa dose de preconceito– levou o conhecimento ocidental a cogitar a existência de vida extraterrestre por não entender o domínio da geometria empregada pelos egípcios para rolar pedras, ela foi inventada séculos depois pelo grego Pitágoras.

Em Les Statues meurrent aussi [1953], dir.: Alain Resnais e Chris Marker, o narrador nos aplaca da seguinte maneira: “Quandos os homens morrem, entram para a história. Quando as estátuas morrem, viram arte. A botânica da morte, o que chamamos de cultura. Isso porque a população de estátuas é mortal. Um dia suas faces de pedra se desintegrarão e cairão em terra.”2 Uma das principais questões que Resnais alegava sobre o filme não dizia respeito ao anticolonialismo, mas ao fato de as peças de arte africana era exibida no Museu do Homem, de cunho etnológico, e a arte grega no Louvre”. A questão dizia respeito à catalogação diferente de peças que coincidiam de matéria-prima, a pedra. Após a Idade Média Central, o comércio de raridades e “objetos de culturas exóticas” criou uma valoração monetária aos objetos a partir de sua proveniência. Nas explorações marítimas do século XV, América, África e Ásia faziam parte da tríade do mercado selvagem.

Na italiana Ghilarza, dos anos escolares de Antonio Gramsci, temos ainda abundância de calcário, granitos vermelhos e pretos, xisto, arenito e dezenas de tipos de negras pedras vulcânicas. O tempo das pedras é um tempo outro, não somos apenas a síntese de relações existentes: somos também a história das relações, dizia ele. Foi também da pedra também que tiraram leite os analistas de sua infância: em cada lugar que uma pedra está sobre uma pedra por razões não-naturais, ali encontra-se o conhecimento humano, proferiu Berger.

Foi Brancusi, o romeno, quem disse certa feita que a origem da escultura se dava por um imaginário composto por imagens de infância, como na cartela que apresente outro filme de Chris Marker, o paradigmático La Jetée: “Ceci est l’histoire d’un homme marqué par une image d’enfance”. Constantin Brancusi descreveu a Isamu Noguchi memórias de pedras empilhadas, igrejas antigas em madeira, grama e pedras molhadas, coisas que classificava como “observadas e não ensinadas”, estas eram as que ditavam seu léxico de formas. Até hoje, no entanto, a abordagem formalista tem se provado insuficiente para decodificar o exato desenho intuído pelos meios da linguagem. Através da mirada estrita para a forma, apenas parte forma, apenas parte é levada em conta. Torna-se fundamental levar em conta significante e significado.  Olhar para a matéria torna-se uma escuta da pedra, onde opera uma espécie de fusão da lógica concreta ao pensamento mágico: seres extraterrestres constroem leitos de morte aos humanos que se encontram mais próximos ao sol.

1 “In Brancusi, stone never stops being stone, but it can speak the language of light”, frase do artista Niu Bo sobre o escultor romeno Constantin Brancusi.

2 Do original: “Quand les hommes sont morts, ils entrent dans l’histoire. Quand les statues sont mortes, elles entrent dans l’art. Cette botanique de la mort, c’est ce que nous appelons la culture. C’est que le peuple des statues est mortel. Un jour, nos visages de pierre se décomposent à leur tour”.

 

 

%d bloggers like this: