Vivemos na melhor cidade da América do Sul

De tempos em tempos, tinha seu sono invadido pelo mesmo sonho: o Pão de Açúcar amanhecia partido ao meio, sua metade superior flutuando nas águas da Guanabara; pedregulhos robustos caídos na Urca e adjacências, como se a natureza carioca, finalmente, reclamasse de volta seu paraíso não habitado – um equívoco natural que nem a mais avançada das teorias geofísicas poderia se aventurar a explicar. O balneário-maravilha adentrava, então, um estado de calamidade de ordem absolutamente desconhecida.
Ele, o carioca, que vivia na cidade em regime de heimweh, palavra usada pelos alemães para expressarem a falta de sua terra natal – ainda que ali vivessem, desde seu nascimento -, contemplava a frágil paisagem, agora pura ruína. Tentava esconder, de si próprio, a delituosa felicidade que sentia na concretização da hipótese do apocalipse. Em sua percepção, o único desfecho possível para a cidade que havia substituído suas livrarias e cinemas por farmácias e igrejas.

Tomado por um ímpeto incomum, decidiu percorrer a paisagem por uma última vez, disparando suas risadas irônicas ao observar os moradores da orla, recorrendo a seus serviçais em busca de abrigo nos morros – neste momento, as únicas regiões a salvo da catástrofe. Mas não pensou em escapar com vida: optou por caminhar, imerso em sua usual orgia nostálgica. Flanêur apocalíptico, fez o registro mental, derradeiro, de seus pontos favoritos da ex-capital. Não temia a ideia de que a presença humana fosse extinta daquelas bandas – carregava a tranquila certeza de que ali a paisagem permaneceria, lavada e ressurgida, recomeçando seu ciclo inevitável de exuberância. Victor Gorgulho

…e o sol também se levanta a cada novo dia no Rio de Janeiro. Diante da inútil paisagem, corpos encontram-se na areia e no asfalto: um embate entre a chuva, o sangue, o sol, o sal, o suor e a cerveja.  A constante reatualização do mito carioca presta seus favores à uma História mal contada, uma suposta democracia racial que ostenta violência e desconhece seu passado colonial – casas grandes e senzalas perpetuadas nos banheiros de empregada, em diminutos conjugados na zona sul da “cidade maravilhosa”. E a temperatura sempre sobe quando a música aumenta, quando o pau levanta e o sol se põe à pino nos trópicos brasileiros. Nesta toada, a antiga Capital conserva os timbres da alta e da baixa cultura, uma profusão de odores humanos, maresia e gás natural (Brasília, um tropeço histórico?!). Explosões constantes aceleram a economia simbólica de uma cidade em convulsão, onde sexo é dinheiro, favor é corrupção, prazer é morte, samba é redenção e o excesso tempera o dia-a-dia que se arrasta de costas para o relógio. Noções de avanço e progresso são diluídas ao longo do caminho, perdem-se em meio a seus próprios destroços, tanto morais quanto tecnológicos. Assim, a História deixa de ser escrita como continuação do passado, rumo ao futuro – à beira do apocalipse? Os sucessivos projetos modernos naufragaram no fisiologismo, na anomia política e na ideologia rota do populismo. Nos resta a revolução, a iconoclastia, a voz do povo: afinal, todo o poder emana do povo!  ” This obsolete 20th Century object, the exhibition.” Catherine David . Bernardo José de Souza

Átomos apresenta Vivemos na melhor cidade da América do Sul, projeto que explora a paisagem cultural e política do Rio de Janeiro. Ao relativizar a imagem consolidada nos cartões postais, a exposição percorre noções contraditórias da identidade carioca, ora reforçando as tintas idílicas que banham a cidade, ora mapeando as zonas cinzentas que compõem o painel multicultural do espaço urbano e da geografia natural que funcionam como síntese da cultura brasileira.

trabalhos
Adriano Costa
Alair Gomes
Anna Franceschini
Beto Shwafaty
Carlos Vergara
Caroline Valansi
Débora Bolsoni
Dominique Gonzalez-Foerster
Glaucia Mayer
Guga Ferraz
Guerreiro Do Divino Amor
Hélio Oiticica
Joe Williamson
Leony Fabulloso
Maria Sabato
Mario Testino
Manoela Medeiros
Marcelly Imperatriz da Dança
Marcos Chaves
Miúda
Pedro Flutt
Pedro Victor Brandão
Pedro Rocha
OPAVIVARÁ!
Oliver Bulas (com Arthur Manhães, Luiz Antonio da Freitas Silva e Natasha Pasquini)
Raymundo Amado
Rodrigo Matheus
Romain Dumesnil
Rosângela Rennó
Vivian Caccuri

Curadoria
Bernardo Jose De Souza
Victor Gorgulho

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